segunda-feira, outubro 17, 2005

Ser ou não ser

Deixem-me ser honesto convosco - uma coisa que, a propósito, acho tremendamente difícil. Quando alguém é invisível confronta-se com problemas como o bom e o mau, a honestidade e a desonestidade, formas diferentes de ver a mesma coisa e por isso mesmo capazes de provocar grandes confusões, dependendo apenas de quem o olha naquele momento. Bom, neste momento, estou a olhar para mim, e corro grandes riscos. Nunca fui mais odiado do que quando tentava ser honesto. Ou quando, como agora neste preciso momento, tentei explicar o que é a verdade para mim. Ninguém ficou satisfeito - eu também não.
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Na verdade, o mundo é apenas concreto, vulgar, vil e sublimemente maravilhoso como sempre foi, só que agora compreendo melhor a minha relação com ele e a relação dele comigo. Fiz um longo percurso desde os primeiros tempos em que, cheio de ilusões, convivi e tentei funcionar convencido que o mundo e as relações aí criadas eram sólidas. Agora sei que que as pessoas são diferentes, que a vida se leva sem união e que só na desunião se encontra o verdadeiro estímulo.
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A vida é para ser vivida, não controlada; e a humanidade ganha-se continuando a "representar" mesmo perante uma derrota certa.
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O nosso destino é tornarmo-nos um, se possível muitos - isto não é uma profecia, é apenas uma afirmação.

(In Invisible man/Ralph Ellison/trad. de "Por-um-fio")

1 comentário:

Mendes Ferreira disse...

ser muitos. é o nosso destino. boa noite.