domingo, dezembro 04, 2005

As Intermitências da Morte


Porque é que a maior parte dos autores quando se refere à Morte a descreve como sendo uma mulher? E regra geral descrevem-na como jovem e formosa.
A figura da Morte que mais me impressionou foi a imaginada por Akira Kurosawa no seu filme "Sonhos". A Morte, bela e jovem, envolta em véus brancos, num ambiente igualmente branco e gélido de neve...imagem terrível!
Mas nas Intermitências de J.S. é a primeira vez que me enterneço com a figura da Morte. Quando o Autor decide misturá-la com os humanos "pinta-a", também, como uma mulher jovem e formosa. Uma mulher que acaba por fazer amor com o violoncelista que era suposto vir matar. Mas antes "de", sugeriu-lhe que tocasse a suite número seis de bach. (Um doce!) Mas, algum talento do violoncelista se sobrepôs às intenções que a animavam desde o princípio desta história. Enfim, mais uma que acaba «apaixonada». E, neste caso, uma Morte a humanizar-se deixa-nos de coração « mole». Tão querida! Mandou a "carta" que trazia consigo "às urtigas", uma carta que iria tornar o violencelo do seu violoncelista para sempre mudo e inútil ... "voltou para a cama (que tinha deixado quentinha) , abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras."
É um fim inesperado... e no minimo enternecedor! E muda completamente a imagem de Morte a que estávamos habituados... Até o cão do violoncelista já tinha achado aquele regaço acolhedor, pois foi lá "poisar" umas noites antes do "happy-end". "Pela primeira vez na sua vida a morte soube o que era ter um cão no seu regaço." Será que temos o dom de tudo "corromper" até a Morte?

7 comentários:

Jorge disse...

Bela concepção a do cineasta, poética até. Mas ...há sempre um mas,...na realidade, a morte é como os anjos: não tem sexo e além disso inevitável.Então não leste nadasobre o meu amigo Sebastião, que te ofereci como prenda de Natal?
Sua marota!qsu
Bjs

soniaA disse...

Boa tarde e obrigada pela visita.

Choninha disse...

As "mulheres" são espertas: preferem uma cama quente e um parceiro a fazer "figuras" de morte!

Um beijo, por-um-fio...

Mendes Ferreira disse...

não posso estar mais de acordo contigo. em tudo. até nesta "morte"...bjo.vivo.

Jorge disse...

Só não dei a ajuda de que precisavas porque tive dificuldades com a net.
De todo o modo penso que se escreve: urtigas.
Bjs

soniaA disse...

Boa tarde.

Fausta Paixão disse...

Pois bem. Gostei das flores e das visões coloridas e das palavras também. Há aqui qualidade e bom gosto. E uma ponte que me é vizinha.
Quanto à morte (a literária ou cinematográfica) não me apetece falar dela. Mas a figura feminina sempre foi conotada com o mal, sim; é talvez por isso que criei esta personagem que parece tola... mas talvez não seja!