quinta-feira, dezembro 01, 2005

Reflexões num dia de chuva*

Na vida tudo é precário. Uma das condições dos tempos modernos é a da precariedade… Na verdade, tudo parece reger-se por um contrato temporário. E quando parece que toda a gente “berra” contra isto, na verdade, toda a gente trabalha para que esta realidade se consolide e se perpetue. Ninguém faz nada para alterar este estado de coisas. Pelo contrário, é um mal que se alastra a todas as outras formas de relação que estabelecemos uns com os outros. Mais competitivos, certamente! Mas muito mais precários! O que conta é o dia de hoje, o «amigo» que nos pode abrir portas… Se analisarmos, mesmo que superficialmente, os vários aspectos da vida social, verificamos que assim é em tudo, quase tudo…

O trabalho é aquilo que mais salta à vista. Actualmente, as condições de trabalho são cada vez mais precárias. Mas já nos vamos habituando a isso. E, no entanto, essa é a relação contratual que garante a nossa sobrevivência, o nosso desenvolvimento pessoal e que confere à nossa vida maior ou menor estabilidade, afectando-nos na relação que estabelecemos connosco e com os outros.” O trabalho é a actividade correspondente ao artificialismo da existência humana… O trabalho produz um mundo artificial de coisas nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro das suas fronteiras habita cada uma das vidas individuais, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas as vidas individuais. A condição humana do trabalho é a mundanidade. (i)” Como é que conceitos tão importantes para a estruturação da vida individual e da sua relação com a sociedade perderam força e até sentido? E todos interiorizámos estes conceitos, mais ou menos penosamente, quando nos preparávamos para, pela primeira vez, nos confrontarmos com o mundo do trabalho. Um mundo que exigia de nós também a nossa quota-parte de artificialidade. Buscávamos desafogo económico, reconhecimento, estatuto, mas com princípios, valores…Era um novo «papel» que tínhamos de assumir e procurávamo-lo com a gravidade de quem procurava uma relação para toda a vida. Actualmente, toda a gente «berra» porque nesta matéria a força desta relação enfraqueceu e essa situação do emprego para toda a vida foi «chão que deu uvas». E os princípios deram lugar a um vazio onde tudo vale «até tirar olhos»!

Mas se nos detivermos noutras facetas da vida pessoal, percebemos que outras relações também sofreram alterações profundas. A relação conjugal (ainda alguém se lembra do que isto é?), o conceito de casamento para toda a vida (até que a morte os separe) também mudou. Isto é, de um contrato vitalício passou-se para um contrato a prazo, a termo incerto, tudo passou para a condição de incerto, não passando muitas vezes de um período experimental muito curto. Nunca se sabe bem por quanto tempo essa relação vai aguentar os efeitos da estiagem (não se esqueçam que os verões são cada vez mais longos e secos). Daí ter aprendido que amor é figura de estilo, já não existe, existe sim a paixão pelo vermelho, pelo verde, ou por outra cor qualquer desde que suficiente e momentaneamente apelativa. Não será um botão de rosa vermelho o melhor símbolo de uma grande paixão? No entanto, tão efémera é a sua vida…

E não é a própria vida efémera, tal e qual um contrato a prazo (e por que prazo, alguém sabe ?), dependendo apenas da força imprimida ao curso da nossa vida e da «contra-corrente» a que é sujeita pelas contrariedades do dia a dia? E tudo se torna mais frágil, quando procuramos numa satisfação imediata a compensação para uma determinada dificuldade. E comportamo-nos como se o nosso contrato não tivesse o termo marcado. Na verdade, comportamo-nos como se fossemos nós que definíssemos as regras desse contrato, ignorando que aquele se aproxima inexoravelmente do seu termo e desaproveitamos aquilo que a vida tem de melhor para nos oferecer. Passamos a maior parte do tempo a tentar «lixar» o parceiro do lado, não respeitando nada nem ninguém, e esperando provavelmente pelo último dia da nossa vida para nos arrependermos e pedir perdão pelos nossos actos, convencidos que com isso o céu ficará ao nosso alcance. Respeito pelos outros? Mas quem são os outros? Ah! Mas os «amigos» foram poupados ao «vandalismo», os «amigos» não foram «lixados»! Só se «lixaram» os outros… esses anónimos que também fazem parte da humanidade. Anónimos mas humanos! Ou a nossa «pinga» de piedade esgota-se nas “chinchilas” que se destinam a «forros» de casacos de agasalho? Tão pequeninos que somos! Mas, para quê preocuparmo-nos? Não continuam todas as semanas a ter uma sexta-feira para a catarse semanal, a tão festejada «friday-night-fever» que vai mantendo uns tantos seres próximos do que é quase normal nos restantes dias da semana? E no final de contas o que é que a vida tem de melhor para nos oferecer? Alguém sabe?

“Saberemos cada vez menos o que é um ser humano.”Livro das Previsões
José Saramago com As Intermitências da Morte
(i)Hannah Arendt na Condição Humana

Conclusão: Demasiado longo este dia de chuva! Nota-se, não é verdade?

1 comentário:

Mendes Ferreira disse...

e ainda bem que se nota...assim. aqui.da tua maneira peculiar de notar....por dentro de um dia de chuva....bjo.