segunda-feira, março 06, 2006

Ainda a propósito dos percursos de Eça

Vem muito a propósito citar as palavras de João Medina, prefaciador da obra que, em baixo é referida e que também me tem inspirado nestes percursos.

Porque conhecendo esta obra como a conheço, há uma série de anos, e de imensas leituras feitas, sempre que passo numa praça ou numa rua de Lisboa que foi cenário de qualquer uma das obras de Eça, não consigo deixar de fazer a associação respectiva ao drama ali «vivido». E, hoje, é pretexto para muitas das fotografias que tenho tirado, procurando respeitar o ângulo, a perspectiva, e na opinião de Soledade, «esse ar luminoso e macio que Eça tantas vezes evoca....».

E João Medina diz tudo isto tão bem...

«Só se conhece deveras aquilo que se ama, aquilo que se conhece com amor - pessoas, ideias, terras, objectos. A cognição é sempre afinal, paixão, e isto em todo o sentido da palavra: sofrimento e prova.
...

Mas não deixa de ser bizarra, embora ao fim e ao cabo, lógica, esta simbiose entre arquitectura e urbanismo e a leitura de Eça. Construtor de seres imaginários e impalpáveis habitando paisagens reais (executadas em obediência aos ditames do «realismo»), Eça ganhava pois em ser focado e lido numa perspectiva arquitectónico-paisagística, procurando-se fazer coincidir com o espaço físico, humano e telúrico concreto com os entes fictícios que são os personagens, melhor, com o texto onde estes vivem e sem o qual não podem subsistir, aquário das palavras que a nossa imaginação recria de tempos a tempos.

Personagens que povoam, invisivelmente mas nem por isso menos solidamente, a cidade imaginária erguida pelo labor romanesco do artista nascido na Póvoa do Varzim em 1845 e falecido no estrangeiro há 76 anos. Por outras palavras, era tentador experimentar o jogo de pôr, lado a lado, o texto, a rua, o personagem e a cidade real, a alma feita de palavras e a casa concreta feita de pedra, vidro e madeira, a descrição e a coisa descrita, os muros de tijolo, em suma, o retrato e o cenário onde o retratado teria vivido, amado, desesperado.»

( Imagens do Portugal Queirosiano, Lisboa, 1976)


4 comentários:

FOTOESCRITA disse...

A propósito deste texto, tenho um livro, em inglês, sobre escritores ingleses, que mostra precisamente as fotografias dos locais e os mapas dos percursos e dos locais reais onde se passam as cenas dos livros dos escritores. É muito interessante.
M

T. disse...

Sim, também conheço um (não o possuo, infelizmente, passou-me pela mão um dia) sobre a Dublin de James Joyce...

FOTOESCRITA disse...

Julgo que o nome do livro é "The art of literature", mas não o tenho aqui em Lisboa. Logo que vá passar um fim de semana fora, dou-te a referência certa. Talvez dentro de um aou duas semanas.
M

FOTOESCRITA disse...

Também tenho dois livros que é uma coisa semlhante, mas com pintores.
"The Impressionists' Paris"
(Walking tours of the artists' studios, homes, and the sites they painted), by Ellen Williams, The Little Bookroom, ISBN 0-9641262-2-2
e
"Picasso's Paris"
(Walking Tours of the artist's life in the city), by Ellen Williams, published by The Little Bookroom, 5 St. Luke's Palce, Neww York NY 10014
ISBN 0-9641262-7-3.
Ambas as edições de 1999
Comprei-os em Paris, no W.H. Smith.