domingo, março 19, 2006



Em O Primo Basílio, ao retratar o Passeio Público repete-se o ambiente geral de decadente atonia: «Toda a burguesia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor formado pelas filas cerradas das cadeiras do asilo: e ali se movia entalada, com a lentidão espessa duma massa mal derretida, arrastando os pés, raspando o macadame, num amarfanhamento plebeu, a garganta seca, os braços moles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente, para cima e para baixo, com um bombardeamento relaxado e um rumor grosso, sem alegria e sem bonomia, no arrebatamento passivo que agrada às raças mandrionas: no meio da abundância das luzes e das festevidades da música, um tédio morno circulava, penetrava como uma névoa; a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e nos rostos que passavam sob os candeeiros, nas zonas mais directas da luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimentos de dia santo.»

Os elementos humanos da cidade ligam-se aqui intimamente com os seus elementos físicos, identificando magistralmente a personalidade humana de Lisboa do último quartel do séc. XIX. No primeiro artigo d'As Farpas, de resto, o Passeio Público fora já referido «como uma coisa lúgubre» como uma «secretaria arborizada», ou seja, como perfeito símbolo da decadência do País, que Eça classificava então como uma «agregação heterogénea de inactividades que se enfastiam, ou seja, uma nação talhada para a ditadura - ou para a conquista, para a tirania, e para os domínios clericais.»

Prosas Esquecidas, V. Edit. Presença, 1966.

3 comentários:

Mendes Ferreira disse...

___________desisto!!!! vinha dizer q.q.coisa de mt banal...mas desisto....por aqui mora a sabedoria de captar o invisivel...logo vou-me.

ah .....já sei....bom dia T. enorme T.

greentea disse...

banal só se fôr esta caracteristica do português que se passeia (sempre) pelo passeio pública encolhendo os ombros placidamente a todos os pratos que lhe querem apresentar

os outros não vão para o passeio público, deixam antes aninhar sonhos de plantar novas árvores e que outros pássaros regressem...

FOTOESCRITA disse...

Agradou-me, esta fotografia enevoada a realçar o texto.