domingo, março 26, 2006

Jardim de São Pedro de Alcântara


(Miradouro do Jardim de São Pedro de Alcântara)

Atente-se, por exemplo, na descrição que nos faz, nas últimas páginas d'Os Maias, do Alto da Graça e da Penha de França, panorâmica esta de facto, das mais notáveis de Lisboa e já objecto de particular bosquejo quando do passeio célebre de Luísa com o seu conselheiro Acácio pelo Jardim de São Pedro de Alcântara: «E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graça e da Penha de França, com o seu casario escorregando pelas encontas ressequidas e tisnadas do sol. No cimo, assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as atarracadas vivendas eclesiásticas, lembrando o frade pingue e pachorrento, beatas de mantilha, tardes de procissão, irmandades de opa atulhando os adros, erva-doce juncando as ruas, tremoço e fava-rica apregoada às esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto ainda, recortando no radiante azul a miséria da sua muralha, era o Castelo, sórdido e tarimbeiro, donde outrora, ao som do hino tocado em fagotes descia a tropa de calça branca a fazer a bernarda! E abrigados por ele, no escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palacetes decrépitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brasões nas paredes rachadas, onde, entre a maledicência, a devoção e a bisca, arrasta os seus derradeiros dias, caquética e caturra, a velha Lisboa fidalga!»

(Os Maias)

Através desta descrição surge todo um ambiente provinciano e fruste, a denunciar a decadência geral de uma sociedade letárgica e retrógrada como síntese histórica final da efabulação trágica d'Os Maias.

O romance queirosiano, que tanta preferência, acusa pelo tipo humano de baixa e medíocre medida, retratando impiedosamente essa fauna grotesca e tão real dos Dâmasos, Melchiores, Palma Cavalões, Meirinhos, Basílios, Abranhos e Gouvarinhos, apresenta-nos com frequência uma paisagem urbana criticamente visualizada em estreita correspondência com a hediondez e decrepitude destes caracteres.

8 comentários:

BlueShell disse...

Gostei. Sou apixonada opoe Eça. Posso deixar um abraço apertado?
*=*=*=*=*=*=*=*BShell*=*=

greentea disse...

vou-me meter em trabalhos...

mas a responsabilidade é tua !

greentea disse...

esqueci-me : bons sonhos



misteriosos...

HatA/mãe disse...

Gostei imenso se ver o seu fotoblog. Sendo eu de Lisboa, Acho um encanto. Obrigado

greentea disse...

já abriste a TUA janela?

pois então , vai espreitar...

e tem um bom dia!!

FOTOESCRITA disse...

Que bela surpresa a greentea te preparou! Achei delicioso esse intercâmbio de passados que ela arranjou. Belo presente! Deves sentir-te contente.
E as fotografias do passeio... claro que continuam lindas.

greentea disse...

Estas cartas são um mistério.
No Campo de Santana morava a minha Avó Maria...
Nessa casa havia uma grande secretária, dela , só dela onde ninguém estava autorizado a mexer.
Quando a minha Avó morreu, encontrei uma caderno de cartas de amor , copiadas por ela à mão; ninguém sabe quem foi o autor dessas cartas tão maravilhosas como esta. Guardei-as durante anos e anos sem as ler por respeito com a intimidade dela. Um dia reencontrei o caderno da capa preta...

São outras formas de amar, que hoje se expressam diferentemente, mas duma beleza tão intensa quanto as fotos da t. com as quais se conjugam maravilhosamente...
Nada disto combinámos. A t. fez o post dela e eu acabei de escolher alguma foto mais e aconcheguei-lhe a Carta a Maria (escrita em 1914)

Um beijo em especial para a t. que permitiu este deleite para os olhos , para a alma; as nossas sinergias , como ela diz, fizeram o resto.
Um beijo para todos que nos leram, que vieram até aqui.

March 29, 2006 2:45 PM
eu sabia que era mesmo "a tua janela"...

um abraço grande por teres permitido realizar tudo isto...

T. disse...

É tão bom quando a partilha é autêntica e civilizada.
Eu acho que isto está apenas a começar...
Um beijo para a Greentea e para todos os amigos que também têm partilhado estes momentos connosco.