quarta-feira, março 08, 2006

O Dia da M...

M. ...Leia-se o que se quiser...

Claro que hoje acordei com vontade de ser tratada como uma flor. Se bem me lembro, acho que não há dia nenhum em que não acorde com essa vontade ou esse desejo...
Espero que reconheçam alguma legitimidade neste meu desejo.
E creio que esse desejo é comum a todos os mortais, sejam eles mulheres ou homens. Não existem é, assim, tantos Principezinhos disponíveis. E, quando existem, não "aprendem" a lição do amor com tanta "proficiência". Isto de se ficar "cativado" por uma única "flor" para sempre, não é coisa que se aprenda facilmente ou, até, em alguns casos, que se deseje mesmo aprender.

Não foi, pois, por acaso que fiz uma ligação ao blog da Greentea, onde este tema mereceu destaque e tratamento adequado através do Principezinho que tão boas lições encerra naquelas páginas. Lições que transmitem valores morais, mas imbuídas ao mesmo tempo de imensa graça e ternura.
E o Principezinho já correu algumas gerações e pouco se aprendeu com «ele». Outras obras de igual mérito têm preenchido kilómetros de prateleiras, mas os valores morais parece que se «esvaziam» na proporção inversa e com uma rapidez estonteante. Literatura é treta, é o que parece concluir, com muito desapontamento, o blogue Soledade naquele texto a que também liguei há dias.

Neste vasto «deserto» que atravessamos, parecem-me cada vez mais ridículos os dias consagrados a qualquer coisa, o dia da M (Mulher, Mãe, etc.). Por acaso já marcaram o dia do Homem? O Dia H... interessante! O que se venderá mais neste dia? Uma flor singela, uma flor com um vaso (neste caso, até pode ser útil para lhe dar com o vaso na cabeça), etc. etc.
Ah! Percebo, então o dia M ou o dia H podem ser úteis para se vender mais qualquer coisa, para fazer «girar» o comércio...

E, depois de tantos «festejos», o que sobra?

O dia da M....O balanço deste dia foi muito negativo para mim. Quando regressava a casa, no meu frenesim habitual do METRO, com um iogurte magro numa mão e uma flor noutra, tudo oferecido por ser o dia da M., olhei de soslaio para um jornal onde li de passagem: «Criança de três anos, morta com pontapés no abdómen...». Não consegui ler mais. Desviei o olhar. Claro que senti uma dor imensa, pensando nessa e noutras crianças tão maltratadas por esse mundo fora. Mas senti o horror de ser M., e de haver outras M's e de haver outros H's e de estas coisas simplesmente acontecerem quase debaixo dos nossos olhos e nós permitirmos que aconteçam. Porque quando viramos a cara para o outro lado, estamos a permitir atrocidades destas.

Chamo a isto emigrar para dentro, ou melhor, emigração interior.*
É aquilo que todos fazemos, mais ou menos, quando nos demitimos de fazer alguma coisa para mudar o mundo. É uma fuga à realidade. Choca-nos aquela realidade. Não podemos fazer nada para a mudar, então o melhor é fazer de conta que não a vemos, que não a percebemos. É evidente que temos uma justificação interior para esta atitude.
Mas será que não podemos mesmo fazer nada? Vamos continuar a desviar o olhar?

Concluindo, qual é o próximo dia que se segue? O Dia da Criança não espancada? O Dia da Criança sem Pedófilo à vista?

Hiprocrisia social! É só «fachada»! Porque os dias A., B., C. e D. é só para garantir que o «espectáculo» continue...

Gostaria de colocar uma fotografia neste texto, porque uma imagem vale muitas palavras, mas não consigo... O balanço deste dia foi mesmo uma M. !

Boa noite!

NA.: Qual é o dia, afinal, que se segue?

* A Ana Arendt trata este tema magistralmente. Não nos sossega, não nos responsabiliza, mas dá-nos algumas respostas (referido no meu outro blogue, também «obscuro», Palavras ao Vento, em Dezembro de 2005, uma vez que me deu para «cogitar»...)

4 comentários:

greentea disse...

bom dia , para ti, com cerejas , com papoilas vermelhas com o que mais gostares...
por todas as razões que apontas no teu texto, fiquei doente ontem, hoje, tenho vertigens , náuseas, stress, qualquer coisa dessas q nem as flores q me trouxeram nem o tratamento de flor me fizeram ultrapassar.
É a criança morta , é o cão espancado, é a criança abandonada pema mãe na maternidade, a violencia domestica, a pedofilia, a mentalidade. Sobretudo a mentalidade. A fotoescrita dizia nos comments "viver é desenhar sem borracha" e estes traços nunca mais se apagam em nós! Quantas mulheres são espancadas, violentadas diariamentee calam-se, preferem assim - uma q eu conheci dizia q perdia o estatuto se deixasse o marido director de uma grande empresa...
O texto da Rosana Braga é lindissimo de facto e é para todos os dias não apenas para um qualq 8 de Março e devia chegar a todas essas mulheres que calam, que toleram, que não vivem, se amarfanham, auto-destroem, aniquilam e continuam a criar os filhos na mesma subserviencia.
hoje não tenha mais palavras, não sei bem se escrevi o q queria dizer, mas o essencial está lá como na história do Principezinho, que não é uma história de crianças. Mas de adultos!
Rosas para ti. E cerejas, qd chegarem.

FOTOESCRITA disse...

Não sei que dizer. Vocês as duas estão tão sombrias... Não me interpretem mal. É verdade tudo o que vocês contam, eu sei, e irrita assinalar-se um dia tendo por trás uma série de horrores, mas... e a parte bonita do mundo em todas suas variadas facetas? É o único alimento que temos para enfrentar a fealdade.
M

T. disse...

Momentos mais sombrios todos temos... e devemos ter, um pouco de reflexão, e, quando possível de intervenção, só nos faz bem a nós e às pessoas com quem convivemos... convém é não "afundar"
Mas, até me esforço por ver as coisas sempre pelo lado mais positivo.
Não te dizia ontem que que me tinha rendido ao mais puro «hedonismo»? Tentar tirar o maior prazer da vida... esquecendo o lado mais feio das coisas, sobretudo aquelas que não consigo mudar.
Mas quando falo em «hedonismo», não refiro o prazer só pelo prazer, mas sim retirar um prazer profundo das coisas que se gosta de fazer e alargar ou aprofundar esses interesses, no sentido de tornar mais interessante e suportável a «travessia do deserto»!

greentea disse...

sim . O Alquimista. atravessou o deserto em busca de um sonho e encontro-o sob uma outra forma. bem diversa da que ele concebera.