terça-feira, março 21, 2006

A Praça do Rossio



Mas é ainda o Rossio que surge, mais uma vez, na novelística do Mestre, inerte e modorrento, como pano de fundo perfeito e simbólico de inactividade ociosa e entediada dos seus personagens (1): «No Rossio, sob as árvores passeava-se; pelos bancos, gente imóvel parecia dormitar: aqui e além pontas de cigarro reluziam, sujeitos passavam, com o chapéu, abanando-se, o colete desabotoado; a cada canto se apregoava água fresca do Arsenal; em torno do largo carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céu abafava - e na noite escura, a coluna da estátua de D. Pedro tinha o tom baço e pálido de uma vela de estearina colossal e apagada.» (2)
Importa aqui assinalar o valor simbólico pertinente que o romancista extrai de certos monumentos de Lisboa: No Rossio é a forma plástica da estátua de D. Pedro que, semelhante a uma vela apagada (a base apresenta a forma de um castiçal), faz a imagem algo lúgubre de um reino moribundo; nos Restauradores é o obelisco que consagra a revolução de 1640, «com borrões de bronze no pedestal» e, em redor, globos de candeeiros «transparentes e rutilantes, como grandes bolas de balão suspensas no ar», duas notações que dão a realidade vulgar da sua concepção; no alto do Chiado é a estátua de Camões «cercado dos cronistas e dos poetas heróicos da antiga pátria – pátria para sempre passada, memória quase perdida», símbolo de uma epopeia e de uma grandeza fortemente contrastantes com o ambiente descrito pelo romancista na cena em que tal monumento figura, ou seja, o tão citado último capítulo d’ O Crime do Padre Amaro. Em Sintra são as chaminés do Paço da Vila, «colossais, disformes, resumindo tudo, como se essa residência fosse toda ela uma cozinha talhada às proporções de uma gula de rei que cada dia come todo um reino.» ( 3)

(1)António Sérgio sustenta «ser o problema do ócio – e do tédio do ócio – o do âmago da novelística do nosso autor» in Ensaios, vol. VI, Edit. Inquérito, Lisboa, 1946, pág. 138.
(2) O Primo Basílio
(3) Os Maias





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