sexta-feira, abril 14, 2006

Ainda o mesmo mestre...



Todos os elementos que situam e caracterizam o meio são, simultaneamente, ingredientes criadores no leitor da ilusão da realidade, essa ilusão que constituía para Balzac uma das primeiras condições do romance, ou seja, o dom de levar o leitor a crer na ficção como se fora autêntica realidade. «O escritor não tem outra missão senão a de reproduzir fielmente esta ilusão com todos os meios da arte que aprendeu e de que pode dispor» - diria Maupassant em 1887, no prefácio de Pierre et Jean.

Eça de Queiroz revelou-se neste aspecto insuperável mestre, tendo usado com seguro à-vontade de todos os meios capazes de levarem o leitor a uma imediata integração no ambiente da ficção. Em carta escrita à mulher, durante uma das suas estadias em Portugal, podemos ler esta passagem reveladora, a propósito da publicação d'A Correspondência de Fradique Mendes: «Fradique é um sucesso, e ocupa parte de todas as conversações em Lisboa, a ponto de se ouvir esse grande nome por cafés, lojas de modas, peristilos de teatros, esquinas de ruas, etc. O pior é que se crê geralmente que Fradique existiu, e é ele, não eu, que recebe estas simpatias gerais».

Descontado o natural exagero resultante da intenção de fazer espírito com o acontecimento, ele revela, muito embora, uma dimensão característica da ficção queirosiana. Fradique fora, de resto, montado com especiais cuidados de verosimilhança, entre os quais a circunstância de Eça incluir entre a sua correspondência cartas a autênticas personalidades literárias do seu tempo, como Oliveira Martins, Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão.

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