domingo, abril 23, 2006

Concessões ao naturalismo...



E Carlos voltou, com sossego, para junto dos seus amigos...
Vinha apenas um pouco pálido: mais perturbado estava o Ega, que julgava ver de novo, num olhar do Cohen, uma provocação intolerável. Só o Alencar não reparara em nada: continuava a discursar sobre coisas literárias, explicando ao Ega as concessões que se podiam fazer ao naturalismo...
- Fiquei a dizer ao Ega... É evidente que quando se trata de paisagem, é necessário copiar a realidade... Não se pode descrever um castanheiro a priori, como se descrevia uma alma... E lá isso faço eu... Aí está esse soneto de Sintra que eu te dediquei, Carlos. É realista, está claro que é realista... Pudera, se é paisagem! Ora, eu vo-lo digo... Ia justamente dizê-lo, quando tu apareceste Ega... Mas vejam lá vocês se isto os maça...
Qual maçava!
...
Era em Sintra, ao pôr do Sol: uma inglesa, de cabelos soltos, toda de branco, desce num burrinho por uma vereda que domina um vale; as aves cantam de leve, há borboletas em torno das madressilvas; então a inglesa pára, deixa o burrinho, olha enlevada o céu, os arvoredos, a paz das casas - e aí, no último terceto, vinha «a nota realista» de que se ufanava o Alencar:

Ela olha a flor dormente, a nuvem casta,
Enquanto o fumo dos casais se eleva
E ao lado, o burro, pensativo, pasta.

- Aí têm vocês o traço, a nota naturalista... E ao lado, o burro, pensativo, pasta... Eis aí a realidade, está-se a ver o burro pensativo... Não há nada mais pensativo que um burro... E são estas pequeninas coisas da Natureza que é necessário observar... Já vêem vocês que se pode fazer realismo, e do bom, sem vir logo com obscenidades... Vocês que lhes parece o sonetito?»

(Os Maias)


1 comentário:

FOTOESCRITA disse...

As coisas que tu descobres! Tem muita graça este texto.