sábado, abril 29, 2006

E Sintra é mesmo assim...


«E a passo, o break foi penetrando sob as árvores...
Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: através da folhagem, faíscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo às verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas de sol, sentia-se já sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas de Verão...
Cruges respirava largamente, voluptuosamente.

- Lawrence onde é? Na serra? - perguntou ele, com a ideia repentina de ficar ali um mês naquele paraíso.
Nós não vamos para a Lawrence - disse Carlos, saindo bruscamente do seu silêncio e espertando os cavalos. - Vamos para o Nunes, estamos lá muito melhor!
...
Cruges não respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impressão religiosa de todo aquele esplendor sombrio de arvoredo, dos altos fragosos da serra entrevistos um instante lá em cima nas nuvens, desse aroma que ele sorvia deliciosamente, do sussurro doce de água descendo para os vales...
Só ao avistar o Paço descerrou os lábios:
- Sim senhor, tem cachet!»

(Os Maias)

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