sexta-feira, abril 28, 2006

Enfim, uma écloga!


«- Com franqueza, aqui para nós, que ideia foi esta de vir a Sintra?
Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de Mozart e pelas «fugas» de Bach? Pois bem, a ideia era vir a Sintra, respirar o ar de Sintra, passar o dia em Sintra... Mas, pelo amor de Deus, que o não revelasse a ninguém! E acrescentou rindo:
- Deixa-te levar, que não te hás-de arrepender...
Não, Cruges, não se arrependia. Até achava delicioso o passeio, gostara sempre muito de Sintra... Todavia, não se lembrava bem, tinha apenas uma vaga ideia de grandes rochas e de nascentes de águas vivas... E terminou por confessar que desde os nove anos não voltara a Sintra. O quê! O maestro não conhecia Sintra! Então era necessário ficarem lá, fazer as peregrinações clássicas, subir à Pena, ir beber água à fonte dos amores, barquejar na Várzea...
- A mim o que me está a apetecer muito é Seteais; e a manteiga fresca.
- Sim muita manteiga - disse Carlos. - E burros, muitos burros... Enfim, uma écloga!
...
Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Sintra. E realmente não sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que ele não avistava certa figura que tinha um passo de deusa pisando a Terra, e que não encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus: agora supunha que ela estava em Sintra, corria Sintra. Não esperava nada, não desejava nada. Não sabia, se a veria, talvez ela tivesse já partido. Mas vinha; e era já delicioso o pensar nela assim por aquela estrada fora, penetrar, com essa doçura no coração, sob as belas árvores de Sintra...»

(Os Maias)



1 comentário:

Teresa David disse...

Que bom reler as palavras de Eça que tanto gosto, e ainda por cima ilustradas com estas magníficas fotos. Parabéns.
Um abraço
Teresa David
http://teresadavid.blogspot.com