sábado, abril 29, 2006

Para entender um Mozart, um Chopin...


«Então o poeta, parando de novo, contemplando Carlos com simpatia:
- Que bem que fizeste em arrastar cá o maestro, filho!... Quantas vezes eu tenho dito àquele diabo que se metesse no ónibus, viesse passar dois dias a Sintra. Mas ninguém o tira de martelar o piano. E olha tu que mesmo para a música, para compor, para entender um Mozart, um Chopin, é necessário ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia de ramagem...
Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado:
-Tem muito talento, tem muita ideia melódica!... Olha que andei com aquilo às cabritas...
Era apenas um bocadito de estrada, apertada entre dois velhos muros cobertos de hera, assombreada por grandes árvores entrelaçadas, que lhe faziam manchas de sol: e, na frescura e no silêncio, uma água que não se via ia fugindo e cantando.
- Se tu queres sublime, Cruges - exclamou Alencar- então tens de subir à serra. Aí tens o espaço, tens a nuvem, tens a arte...
- Não sei, talvez goste mais disto - murmurou o maestro.
A sua natureza de tímido prefiriria, decerto, estes humildes recantos, feitos de uma pouca folhagem fresca e de um pedaço de muro musgoso, lugares de quietação e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o cismar dos indolentes...
- De resto, filho - continuou Alencar tudo em Sintra é divino. Não há cantinho que não seja um poema... Olha, ali tens tu, por exemplo, aquelas lindas florinhas ...»

(Os Maias)

1 comentário:

Mendes Ferreira disse...

já não digo nada....



não sei.



talvez só a minha rendida contemplação.