sábado, abril 29, 2006

Sentia um desejo de galopar para Lisboa...


«Sintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. Não teve ânimo de voltar ao palácio, nem quis sair mais dali; e arrancando as luvas, passeando em volta da mesa de jantar, onde murchavam os ramos da véspera, sentia um desejo de galopar para Lisboa, correr ao Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vê-la, saciar os seus olhos nela!...
Porque o que o irritara agora era não poder encontrar, na pequenez de Lisboa, onde toda a gente se acotovela, aquela mulher que ele procurava ansiosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um cão perdido: fizera peregrinações ridículas de teatro em teatro: numa manhã de domingo percorrera as missas! E não a tornara a ver. Agora em Sintra, coava Sintra, e não a via também. Ela cruzava-o uma tarde, bela como uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cair na alma por acaso um dos seus olhares negros, e desaparecia, evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao Céu, de ora em diante invisível e sobrenatural...»

(Os Maias)

7 comentários:

Isabel José António disse...

Um desejo de galopar por Lisboa
Pode ser visto de tantas maneiras
Ou alguma coisa que possa ser boa
Ou, à pressa, sair pelas trazeiras

Galopar como o pensamento
Que é lesto na arte de voar
Ou estar preso a um momento
Em que algo se possa revelar

Revelações são visões interiores
De algo que está para além do mar
Forças ou energias bem maiores
Ou celebrações da vida a cantar

Um abraço

José António

T. disse...

Obrigada pelo teu poema «galopante» cheio de força!

FOTOESCRITA disse...

... e eu um desejo de ver "in loco" o que aqui nos mostras. Nem que fosse só a passo.

Isabel José António disse...

Ora vejo que já alguém com bom gosto tinha aqui passado a deixar uma homenagem a tão belo post !

Querida T, este teu blog continua a ser uma carícia para os olhos e para a Alma, e embora possa não dizê-lo tão bem como o José António, com o seu belo poema, também eu fico maravilhada, ainda por cima porque Eça é o meu autor favorito, e Lisboa e Sintra o centro do meu mundo de juventude e também de literatura. Um abraço grande,

Isabel

Mendes Ferreira disse...

não precisas T....tu arrancas todas de todos os lugares....!:)

Teresa David disse...

Não resisto por o seu blog se chamar por um fio a enviar-lhe um poema escrito por mim há bastante tempo que se encontra no meu blog no mês de Fevereiro, logo você não o deve ter visto por ter chegado até mim há pouco tempo, e vai perceber logo o porquê de o enviar:

FILÉ

Quando me senti por um fio
peguei nele e teci-o.
Deslumbrada e com amor
vi surgir uma flor.
E geométricamente avancei
entre quadros tecidos
nessa ânsia invulgar
de ver a arte final
fosse bela ou infernal.
Dos animais aos objectos
do abstracto ao real
do transparente ao opaco
a crescer sem parar
até o fio enredar
De enredada em nós
esqueci tudo em redor
me transformei em aranha
em Penélope espectante
e continuei sem parar
na emoção de tecer
até ao tédio chegar
ou o sono me envolver

Teresa David

Beijinhos

Teresa David disse...

E contnuo a seguir as fotos e as palavras do Eça, com completo deleite! Fiquei mesmo cliente!
Beijos
Teresa David