terça-feira, maio 30, 2006

Por fim...




Carlos sabe que tem de terminar aquela relação. Vai a casa de Maria Eduarda, decidido a revelar-lhe tudo, mas encontra-a deitada. E não resiste a fazer amor uma última vez. É uma das cenas mais bem conseguidas do livro:



«Então Carlos deu um passo no tapete, sem rumor. Ainda sentia o ranger mole do leito. E já todo aquele aroma dela, que tão bem conhecia, esparso na sombra tépida, o envolvia, lhe entrava na alma como uma sedução inesperada de carícia nua, que o perturbava estranhamente. (…) O grande e belo corpo de Maria, embrulhado num belo roupão de seda, movia-se, espreguiçava-se languidamente, sobre o leito brando. (…) Ele tenteava, procurando na brancura da roupa: encontrou um joelho a que percebia a forma e o calor suave, através da seda leve: e ali esqueceu a mão, aberta e frouxa, como morta, num entorpecimento onde toda a vontade e toda a consciência se lhe fundiam, deixando-lhe apenas a sensação daquela pele quente e macia, onde a sua alma pousava. Um suspiro, um pequenino suspiro de criança fugiu dos lábios de Maria, morreu na sombra. Carlos sentiu a quentura de desejo que vinha dela, que o entontecia, terrível como o bafo ardente dum abismo, escancarado na terra a seus pés. Ainda balbulciou: “Não, não…” Mas ela estendeu os braços, envolveu-lhe o pescoço, puxando-o para si, num murmúrio que era como uma continuação do suspiro e em que o nome de querido sussurrava e tremia. Sem resistência, como um corpo morto que um sopro impele, ele caiu-lhe sobre o seio. Os seus lábios secos acharam-se colados, num beijo aberto que os humedecia. E de repente, Carlos enlaçou-a furiosamente, esmagando-a e sugando-a, numa paixão e num desespero que fez tremer todo o leito.»


(Os Maias)


«É ela, que desconhece a ligação entre eles que o seduz. Carlos tenta resistir-lhe, sabendo que, se o não fizesse, cometeria a transgressão máxima. Mas não consegue. Da parte dele o incesto é conscientemente praticado.»

(Eça de Queirós / Filomena Mónica)



14 comentários:

FOTOESCRITA disse...

Belo este pedacinho de natureza cor-de-rosa em conversa amena com a luz dourada do dia. (Está lá um banquinho disponível para esse diálogo, suponho...) :-)

T. disse...

Olá, M.!
Tão bom ter-te sempre atenta!
As tuas palavras são sempre tão gratificantes!
Sabes, este percurso queirosiano é muito belo, mas às vezes é árduo...
Os estímulos tornam o percurso menos penoso...
Bj.

ROADRUNNER disse...

Bem, que paixão pelo Eça! Eu que já não lia "Os Maias" há anos tenho vindo a acompanhar entusiamado os teus/dele percursos com as magníficas "legendas" fotográficas. Não me digas que depois vais passar para os percursos Joyceanos...

T. disse...

R.
Estou a pensar seriamente em percursos Joyceanos ... adorava ser capaz de o fazer!
Já tenho viagem marcada para Dublin. Preciso de um mês inteiro.
A notícia da tua viagem à Irlanda vai-me ser muito útil!
:)

FOTOESCRITA disse...

E quem não precisa de estímulos? Ah se precisamos!
***
Sabes de onde é aquela fotografia em sépia de que gostas? De um sítio lindo na zona do Buçaco, uma estrada de pouco movimento entre montes e alguns vales com aldeias de poucos habitantes. E onde o ar é leve e se ouvem os sinos ao longe e os zumbidos dos insectos e o bater das asas dos corvos. Se não conheces, recomendo. Há dois anos que não vou lá e tenho saudades. É verdade, e há também um museu, o Museu do Moinho, na casa que pertenceu ao Vitorino Nemésio. Um museu muito interessante, que tem objectos (os que conseguiram recolher) da época dos moleiros em cima de burros que subiam o monte com os grãos e os moíam nos moinhos lá no alto. tanta vez que assisti a isso! Também há lá fotografias de moinhos de água e de outros locais como os Açores, por exemplo. Devias gostar de ver.
Um beijo.

FOTOESCRITA disse...

Quando vais, T? Que bom!

T. disse...

M.
Tenciono ir em Agosto. Logo que possa falar-te-ei em pormenor deste projecto.
Quanto ao Caramulo (e à fotografia/texto de que tanto gostei)é curiosissimo. Porque há cerca de 6 anos passei lá umas férias maravilhosas...
Fiz todos os percursos possíveis por aquela Serra (a pé, de jeep, corda, barco, etc...)e fiquei a conhecer todos os trilhos e quanto aos Loendros comecei a tratá-los por tu (nem sabia que existiam antes), fiz um semana ao nível da sobrevivênvia que resultou em imensa «fartura»...
Delicioso!
Realmente a tua fotografia/texto diziam-me muito (muito mais do que à primeira vista...)
Obrigada por me trazeres de volta recordações tão gratas!
Um beijo

FOTOESCRITA disse...

T., conheço o Caramulo e compreendo o teu entusiasmo por esse espaço belíssimo, mas a fotografia é do Buçaco, perto do Luso.

Sandra Figueiras disse...

Olá Profª.
Esta foto é linda, realmente o seu blog é muito interessante.
No sábado levo-lhe a bruchura da CML, com o roteiro Queiroziano, mas as fotos que lá estão são da época.

Sandra Figueiras disse...

Profª.
Realmente Os Maias são uma delicia, e delicia são também as suas fotos, esta da àrvore é linda.

Teresa David disse...

Vim mais uma vez passear o meu olhar sobre as tuas bela imagens que sempre me enchem de prazer, a par dos textos claro!
Estou outra vez de partida para o Norte, na próxima semana, agora ando abaixo acima, mas entretanto neste espaço aconselho-te vivamente a ires ver o filme Modigliani, a propósito do qual vou postar algo.
Um grande beijo
Teresa David

Sandra Figueiras disse...

Bom dia t!
Ontem queria fazer um comentário e não consegui, espero que seja desta.
Para quem gosta do Eça, principalmente dos Maias, o seu blog está uma delicia, as fotos estão óptimas, principalmente esta última está linda.
Vêmo-nos na sexta.

Antonio Stein disse...

Tu mereces tudo de bom,
com um coração assim.

Um beijo muito grande.
És uma Fofa de irmã!

T. disse...

:)
É para sair do - 13 - comentários. Não sou supersticiosa e não acredito em bruxas... mas que AS HÁ ...HÁ!
Portanto, é melhor prevenir que remediar!
Aqui vai! Que se cuidem AS BRUXAS!