quinta-feira, junho 29, 2006



(P. Restauradores)


«...Não sei se é a mim que acontece, se a todos os que a civilização fez nascer segunda vez. Mas parece-me que para mim, ou para os que sentem como eu, o artificial passou a ser o natural, e é o natural que é estranho. Não digo bem: o artificial não passou a ser o natural; o natural passou a ser diferente. Dispenso e detesto veículos, dispenso e detesto os produtos da ciência - telefones e telégrafos - que tornam a vida fácil, ou os subprodutos da fantasia - gramofonógrafos, receptores hertzianos - que, aos a quem divertem, a tornam divertida.

Nada disso me interessa, nada disso desejo. Mas amo o Tejo porque há uma cidade à beira dele. Gozo o céu porque o vejo de um quarto andar de rua da Baixa. Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a majestade irregular da cidade tranquila sob o luar, vista da Graça ou de São Pedro de Alcântara. Não há para mim flores como, sob o sol, o colorido variadissimo de Lisboa. »

(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

4 comentários:

MENTECAPTO disse...

Não tem a ver com o restaurador Olex?

Antonio Stein disse...

Pois,
também detesto muita coisa e...
naturalmente estranhamos, mas também naturalmente os vivemos.

É um Desassossego!

Beijo

greentea disse...

gostei imenso do Livro do Desassossego;
excelente ideia de encaixar estes textos e as fotos.

um beijo para ti

FOTOESCRITA disse...

Como gosto do "Livro do Desassossego"!