domingo, junho 04, 2006



(pormenor da Rua de São Francisco, actualmente Rua Ivens)

Nessa madrugada, às quatro horas, em plena escuridão, Carlos cerrara de manso o portão da Rua de São Francisco. E, mais pungente, apoderara-se dele, na frialdade da rua, o medo que já o roçara, ao vestir-se na penumbra do quarto, ao lado de Maria adormecida - o medo de voltar ao Ramalhete! Era esse medo que já na véspera o trouxera todo o dia por fora no dog-cart, findando por jantar lugubremente com o Cruges, escondido num gabinete do Augusto. Era medo do avô, do Ega, medo do Vilaça; medo daquela sineta do jantar que os chamava, os juntava; medo do seu quarto, onde a cada momento qualquer deles podia erguer o reposteiro, entrar, cravar os olhos na sua alma e no seu segredo... Tinha agora a certeza que eles sabiam tudo. E mesmo que nessa noite fugisse para Santa Olávia, pondo entre si e Maria uma separação tão alta como o muro de um claustro, nunca mais do espírito daqueles homens, que eram os seus amigos melhores, sairia a memória e a dor da infâmia em que ele se despenhara. A sua vida moral estava estragada... Então para que partiria - abandonando a paixão, sem que por isso encontrasse a paz? Não seria mais lógico calcar desesperadamente todas as leis humanas e divinas, arrebatar para longe Maria na sua inocência, e para todo o sempre abismar-se nesse crime que se tornara a sua sombria partilha na Terra?

(Os Maias)




(pormenor da Rua de São Francisco, actualmente Rua Ivens)

1 comentário:

FOTOESCRITA disse...

O modo como os teus olhos olham é muito bonito.
Um beijo.