quarta-feira, junho 28, 2006



«Trovoada
Entre onde havia nuvens paradas, o azul do céu estva sujo de branco transparente.
O moço, ao fundo do escritório, suspende um minuto o cordel à roda do embrulho eterno...
«Como está só me lembra de uma» comenta estatisticamente.
Um silêncio frio. Os sons da rua como que foram cortados à faca. Sentiu-se, prolongadamente, como um mal-estar de tudo, um suspender cósmico da respiração. Para o universo inteiro. Momentos, momentos, momentos. A treva encarvoou-se de silêncio.
Súbito, aço vivo.
Que humano era o toque metálico dos eléctricos! Que paisagem alegre e simples chuva na rua ressuscitada do abismo!

Oh, Lisboa meu lar!»


(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

1 comentário:

João Barbosa disse...

que pena o eléctrico da foto ser uma coisa pastiche... este modelo não existe, é uma invenção kitsch, um objecto a fingir, uma coisa Disneyworld. Imita os antigos nº1 e Nº2 e não é fiel à geração que lhe está na base. Lamentável. Devia ser proibido de cruzar a cidade, porque a polui visualmente e lhe insulta a memória.
O Chiado é um charme!