terça-feira, julho 04, 2006



«... Mas, quando há um intervalo, e não tenho que vigiar o curso da minha marcha, para evitar veículos ou não estorvar peões, quando não tenho que falar a alguém, nem me pesa a entrada para uma entrada próxima, largo-me de novo nas águas do sonho, como um barco de papel dobrado em bicos, e de novo regresso à ilusão mortiça que me acalentara a vaga consciência da manhã nascendo entre o som dos carros que hortaliçam.

E então, em plena vida, é que o sonho tem grandes cinemas. Desço uma rua irreal da Baixa e a realidade das vidas que não são ata-me, com carinho, a cabeça num trapo branco de reminiscências falsas. Sou navegador num desconhecimento de mim. Venci tudo onde nunca estive. E é uma brisa nova nesta sonolência com que posso andar, curvado para a frente numa marcha sobre o impossível»


(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

4 comentários:

hfm disse...

O último parágrafo é um perfeito desassombro!

t&v disse...

gostei muito. mesmo muito :)

Su disse...

vim atraves da eva shanti e amei estar, ler, ver...
voltarei
jocas maradas

T. disse...

Teresa D.
Esta fotografia foi tirada perto da Estação do Rossio. Há ali uma subida que depois se prolonga em escadas até à zona do Largo do Carmo. Não estou segura do nome (Calçada do Duque ?). Hei-de lá voltar para me certificar.