sexta-feira, julho 07, 2006



« De resto, de que servem estas especulações de psicologia verbal? Independentemente de mim, cresce erva, chove na erva que cresce, e o sol doira a extensão da erva que cresceu ou vai crescer; erguem-se os montes de muito antigamente, e o vento passa com o mesmo modo com que Homero, ainda que não existisse, o ouviu. Mais certa era dizer que um estado de alma é uma paisagem; haveria na frase a vantagem de não conter a mentira de uma teoria, mas tão-somente a verdade de uma metáfora.
...
O Tejo ao fundo é um lago azul, e os montes da Outra Banda são de uma Suíça achatada. Sai um navio pequeno - vapor de carga preto - dos lados do Poço do Bispo para a barra que não vejo. Que os Deuses todos me conservem, até à hora em que cesse este meu aspecto de mim, a noção clara e solar da realidade externa, o instinto da minha inimportância, o conforto de ser pequeno e de poder pensar em ser feliz. »


(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

5 comentários:

Teresa David disse...

Tu consegues embelezar uma cidade que em alguns sítios já está feia pelo desleixo sistematica das autarquias, mas este plano mostra como Lisboa, como mulher caprichosa, pode ser bonita quando quer!
Beijos
Teresa David

Su disse...

excelente foto.
belo o excerto escolhido
jocas maradas

FOTOESCRITA disse...

Teresa, fazes bem em pôr aqui estes excertos: são belíssimos!
E é como diz a Teresa David: fazes maravilhas desta cidade.

Sandra Figueiras disse...

Realmente Lisboa é uma cidade linda, apenas temos de saber olhá-la.
E se a uma bela foto juntarmos um excelente texto, tudo parece mais bonito.
Beijos
Sandra

Choninha disse...

"Remoinhos, redemoinhos na futilidade fluida da vida (...)"

Gosto muito do "desassossego" do ajudante de guarda-livros.

As suas fotografias e deambulações pela cidade deixam-me sem palavras, quando por cá passo. E passo... sem deixar marca... Hoje foi a excepção!