quinta-feira, julho 27, 2006




«Floresce alto na solidão nocturna um candeeiro incógnito por detrás de uma janela. Tudo mais na cidade que vejo está escuro, salvo onde reflexos frouxos da luz das ruas sobem vagamente e fazem aqui e ali pairar um luar inverso, muito pálido. Na negrura da noite, a própria casaria destaca pouco, entre si, as suas diversas cores, ou tons de cores: só diferenças vagas, dir-se-ia abstractas, irregularizam o conjunto atropelado.

Um fio invisível me liga ao dono anónimo do candeeiro. Não é a comum circunstância de estarmos ambos acordados: não há nisso uma reciprocidade possível, pois, estando eu à janela no escuro ele nunca poderia ver-me. É outra coisa, minha só, que se prende um pouco com a sensação de isolamento, que participa da noite e do silêncio, que escolhe aquele candeeiro para ponto de apoio porque é o único ponto de apoio que há.
Parece que é por ele estar aceso que a noite é tão escura. Parece que é por eu estar desperto, sonhando na treva, que ele está alumiando.»


(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

3 comentários:

FOTOESCRITA disse...

Ó T, isto é lindo!

PiresF disse...

Por indicação da Eva Shanti aqui vim parar e em boa hora o fiz.
Encontrar Pessoa no seu desassossego já era muito bom, direi antes, excelente. Mas encontrá-lo nesta quantidade e tão bem ilustrado, é uma sorte única.

Que nunca te canses de divulgar este homem, este poeta que fez da sua vida a sua maior poesia.

Voltarei sempre.

Um abraço e bem-hajas.

greentea disse...

QD EU ERA PEQUENA E ACORDAVA DE NOITE PPENSAVA QUE ERA APENAS EU QUE ESTAVA ACORDADA NO MUNDO INTEIRO

Não me lembro dos candeeiros...sei que umdia medisseram que os padeiros começavam a trabalhar de noite para termos pão de manhã...
nunca me disseram q Bernardo tb não dormia e tinha por companhia o candeeiro da rua.
se eu soubesse, se tivesse lido o Desassossego...