quinta-feira, julho 20, 2006



«A hora acabou na cidade, como a encosta do outro lado do rio quando o barco toca no cais. Ele trouxe consigo enquanto não tocou na margem, a paisagem da outra banda pegada à amurada; ela despegou-se quando se deu o som da amurada a tocar nas pedras. O homem de calças arregaçadas sobre o joelho deitou um grampo ao cabo, e foi definitivo e concludente o seu gesto natural. Terminou metafisicamente na impossibilidade na nossa alma de continuarmos a ter a alegria de uma angústia duvidosa. Os garotos no cais olhavam para nós como para qualquer outra pessoa, que não tivesse aquela emoção imprópria para a parte útil dos embarques.»


(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

3 comentários:

Freyja disse...

que hermoso, el libro debe ser muy lindo
tienes una fotos maravillosas
un abrazo


besos y sueños

Choninha disse...

Cruzam-se no visível as linhas e os fios... Gostei muito da fotografia. Não vale a pena falar do "desassossego". (Do meu(dele) heterónimo preferido de FP)

greentea disse...

e o suspense - e a vida - vêm em cada manhãa

aos tons da luz e da não luz

ao som do que é e não é

um beijo e bom dia.