sábado, julho 22, 2006



Mais que uma vez, ao passear lentamente pelas ruas da tarde, me tem batido na alma, com uma violência súbita e estonteante, a estranhissima presença da organização das coisas. Não são bem as coisas naturais que tanto me afectam, que tão poderosamente me trazem esta sensação: são antes os arruamentos, os letreiros, as pessoas vestidas e falando, os empregos, os jornais, a inteligência de tudo. Ou antes, é o facto de que existem arruamentos, letreiros, empregos, homens, sociedade, tudo a entender-se e a seguir e a abrir caminhos.

Reparo no homem directamente, e vejo que é tão inconsciente como um cão ou um gato; fala com uma inconsciência de outra ordem; organiza-se em sociedade por uma inconsciência de outra ordem, absolutamente inferior à que empregam as formigas e as abelhas na sua vida social. E então, tanto ou mais que da existência de organismos, tanto ou mais que da existência de leis físicas rígidas e intelectuais, se me revela por uma luz evidente a inteligência que cria e impregna o mundo.

(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)






(Bairro Alto)

2 comentários:

greentea disse...

talqualmente o Lêndeas, a colher a eito as cerejas e os figos verdes podres fermentados com que fez a mixórdia enjoativa - beberagem com que os roçadores de mato botavam um rescendor à lingua que se sentia à légua.Em Aquilino Ribeiro, complementando o Desassossego)

Bom fim de semana.

T. disse...

Greentea
Bonito este texto do Livro do Desassossego. Todas as frases têm um sentido tão profundo, como esta da tua escolha "Se eu fora outro, penso, este seria para mim um dia feliz, pois o sentiria sem pensar n'elle".
Impressionante, não é?
O texto complementar do Aquilino Ribeiro é muito bonito. Foi bom revisitá-lo depois de tantos anos!
Está a ser tão bom reler estes textos - seleccionados por outra pessoa.
É muito empático o que está a acontecer! E a Literatura e pelos vistos a Fotografia juntas fazem milagres.
Qual é a edição do teu Livro do Desassossego? A minha é a 5ªed., da Assírio e Alvim, Março de 2005. Pergunto isto porque pela grafia reflectida nos textos de tua escolha parece ser uma edição antiga. Já agora, de quando?
Sabes que até ao fim do ano vai sair uma nova de uma especialista em Fernando Pessoa? Depois se interessar dar-te-ei pormenores dessa nova edição que, em breve, vai estar no prelo.
Beijos e um bom Sábado.
Vou andar por perto de ti num Safari fotográfico - hoje vamos «penar»!
:)