terça-feira, agosto 22, 2006



«Passo horas, às vezes, no Terreiro do Paço, à beira do rio, meditando em vão. A minha impaciência constantemente me quer arrancar desse sossego, e a minha inércia me detém nele. Medito, então, em uma modorra de físico, que se parece com a volúpia apenas como o sussurro de vento lembra vozes, na eterna insaciabilidade dos meus desejos vagos, na perene instabilidade das minhas ânsias impossíveis. Sofro, principalmente, do mal de poder sofrer.
...
O cais, a maresia entram todos, e entram juntos, na composição da minha angústia. As flautas dos pastores impossíveis não são mais suaves que o não haver aqui flautas e isso lembrar-mas.»


(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)


7 comentários:

merdinhas disse...

"De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos "

do mesmo guardador de livros...

merdinhas disse...

Não dupliques ...

Leticia Gabian disse...

"Medito, então, em uma modorra de físico, que se parece com a volúpia apenas como o sussurro de vento lembra vozes, na eterna insaciabilidade dos meus desejos vagos, na perene instabilidade das minhas ânsias impossíveis. Sofro, principalmente, do mal de poder sofrer."
Quem escreve assim fica eterno!
Abração pra ti.

merdinhas disse...

Que grande desassossego de fios por coma do D. José I...

dulce disse...

A primeira fotografia está o máximo. Do texto nem falo. É tb um dos meus livros de cabeceira.
Beijos

Teresa David disse...

sempre que vejo alguma foto do terreiro do paço penso sempre como poderia ser bem mais animada e bela do que a Plaza Mayor de Madrid ou Salamanca, ao invés do deserto que continua ser.
tudo de bom para ti e bjs
TD

mbotinayo disse...

mbotinayo disse:
Isto é mesmo uma aldeia! Não uma aldeia qualquer, mas uma aldeia em que nos destroços de casas velhas se ouvem, por vezes, vozes de pessoas queridas que jamais esquecemos e às quais continuamos ligados por um traço de união comum - uma carinha sempre com olhar meigo e sorriso mágico.
Adivinhe quem é!...