segunda-feira, setembro 11, 2006



(Jardim da Estrela)

«Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois...»

(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

4 comentários:

merdinhas disse...

Tudo me interessa e (quase) nada me prende...

FOTOESCRITA disse...

Hábitos antigos e o ver sem ser visto. Incómodo, por vezes, para quem é visto. Para onde olha? Ri? Fica sério? Fixa-se o olhar onde? No desconhecido.

APC disse...

Quando o fotógrafo é fotografado, é tipo trabalho de espionagem e contra-espionagem, eheheh...
Adoraria tirar uma foto dessas, à antiga, com essa máquina a que tu tiraste foto, à moderna!;-)

bettips disse...

Quando aqui passo, repasso ...Tudo é tão profundamente belo e simples! Impossível deixar de reparar neste canto tão "nosso", nestes momentos de absoluta perfeição: depois, a foto na água que se vai revelando ... E Fernando Pessoa, naquele seu penar desdobrado, é mais real com as vossas imagens. Obg