segunda-feira, setembro 04, 2006



(Monsaraz)

Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, de perigos grandes - penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo como sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das Coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...


(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

6 comentários:

artspotter disse...

I just started re-reading "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (José Saramago),in my own language "Het jaar van de dood van Ricardo Reis". I love the way Saramago "plays" with the language and hope to find out more about Pessoa...

FOTOESCRITA disse...

Oh that beautiful book, Gustaaf!

**

E que bonita esta brancura a entrar pela nossa alma dentro!

hfm disse...

"Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro..."

É bom vir aqui recordar ou, simplesmente, aprender.

merdinhas disse...

"sem som, um sonho calmo num espaço enorme..."

greentea disse...

está dentro de nós, sob muitas formas...está em Monsaraz e em tantas outros locais ou no conteúdo de um qualquer Desassossego...

Choninha disse...

Não sei de Deus! Mas palpita-me que o gajo deve andar por aí... distraído (só pode!).

Estou podre. Regressei de férias à horas. O pensamento ficou numa ilha de águas cálidas... Até, T., um beijo com sabor a Mediterrâneo.



(Ler-te-ei depois, calmamente, escolhes sempre tão bem os trechos do "Livro")