quarta-feira, setembro 27, 2006


(Rua da Alfândega)


«Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos - tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto.

Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de me sentir coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele.

Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que é a essência das coisas. Há um destino igual, porque é abstracto, para os homens e para as coisas - uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.»


(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)



(Rua da Prata)

4 comentários:

merdinhas disse...

Por um fio não. Por vários. Rua a rua.
Uma verdadeira malha.

merdinhas disse...

Estava na net, sim. Sem desassossego.

Teresa David disse...

Estes locais que palmilhem anos a fio quando trabalhava na Baixa trazem-me sempre boas recordações, e acompanhadas pelos belos textos tudo faz ainda mais sentido.
Bjs
TD

Choninha disse...

Tens razão T. este homem tinha um amor desmesurado pela sua/nossa cidade!
Também a mim me sabem bem aqueles dias de Agosto em que a massa ruma para os algarves e podemos deambular sem ver rostos tristes e cansados a "correr"... (Este ano foi mais noites (risos), no B.A. com caipirinhas e bejecas)


Beijo.