terça-feira, outubro 10, 2006

Na vizinhança da Rua dos Douradores



(Rua dos Fanqueiros)


«O que parece haver de desprezo entre homem e homem, de indiferente que permite que se mate gente sem que se sinta que se mata, como entre os assassinos, ou sem que se pense que se está matando, como entre os soldados, é que ninguém presta a devida atenção ao facto, parece que abstruso, de que os outros são almas também.

Em certos dias, em certas horas, trazidas até mim por não sei que brisa, abertas a mim por o abrir de não sei que porta, sinto de repente que o merceeiro da esquina é um ente espiritual, que o marçano, que neste momento se debruça à porta sobre o saco de batatas, é, verdadeiramente, uma alma capaz de sofrer.

Quando ontem me disseram que o empregado da tabacaria se tinha suicidado, tive uma impressão de mentira. Coitado, também existia!»


(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

3 comentários:

aldina disse...

Á Rua dos Fanqueiros é o lugar de tudo oq ue deixa de existir sem que nos dessemos conta de quando existia; no caso da Polux não será o caso para mim, mas será para muitos, o dos poucos sitios em Lisboa onde se vende borracha e plástico a metro, bolinhas para encher pufs,esponja e espuma para almofadas, etc., tudo o que pertence ao quotidiano subjacente d etodos nós!

Até sempre!

T. disse...

É verdade! Também já lá fui comprar uma preciosidade dessas...
:))))

Teresa David disse...

...e a rua dos fanqueiros foi sempre a rua menos nobre da baixa.
Bjs
TD