quinta-feira, outubro 12, 2006

No Chiado ou em qualquer outro sítio...



(Largo do Chiado)


«A leitura dos jornais, sempre penosa do ponto de ver estético, é-o frequentemente também do moral, ainda para quem tenha poucas preocupações morais.

As guerras e as revoluções - há sempre uma ou outra em curso - chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio. Não é a crueldade daqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: é a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil.
Todos os ideais e todas as ambições são um desvairo de comadres homens. Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata. Que império é útil ou que ideal profícuo? Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma - variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva.»



(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

6 comentários:

merdinhas disse...

Vou ver a palavra puxa palavra.
Boa noite T.

aldina disse...

Que desespero pensar e sentir assim a Humanidade, ou seja, sobre nós próprios... por vezes acontece-me, mas também é igualmente real e verdadeiro o contrário... evoluimos e aprefeiçoamo-nos, há provas, ainda que o inverso pese mais nos corpos e nas almas sem sonhos...

Até sempre

Teresa David disse...

Quantas vezes comprei cigarros neste quiosque!
Bjs
TD

FOTOESCRITA disse...

Boa ideia, T., este texto aqui. Tens razão, tem afinidades com o outro do Ian McEwan.

merdinhas disse...

Para mim foi ler...não foi reler.
Mas fico de sobreaviso

bettips disse...

Venho aqui como beber água, com sede de ver/ler. Redescoberta e saudades do que vi, não vi, li, não li. Será que se pode ter saudades do futuro? Um abraço, escrito assim: a/braço a braço, mão a mão.