quarta-feira, outubro 11, 2006

O Chiado



(Rua Garrett)


« ... a Baixa desperta entorpecida e o sol nasce como que lento. Há uma alegria sossegada no ar com metade de frio, e a vida, ao sopro leve da brisa que não há, tirita vagamente do frio que já passou, pela lembrança do frio mais que pelo frio, pela comparação com o verão próximo, mais que pelo tempo que está fazendo.

Não abriram ainda as lojas, salvas as leitarias e os cafés, mas o repouso não é de torpor, como o de domingo; é de repouso apenas. Um vestígio louro antecede-se no ar que se revela, e o azul cora palidamente através da bruma que se esfina. O começo do movimento rareia pelas ruas, destaca-se a separação dos peões, e nas poucas janelas abertas, altas, madrugam também aparecimentos. Os eléctricos traçam a meio-ar o seu vinco móbil amarelo e numerado. E, de minuto a minuto, sensivelmente, as ruas desdesertam-se.

Vago, atenção só dos sentidos, sem pensamento nem emoção. Despertei cedo; vim para a rua sem preconceitos. Examino como quem cisma. Vejo como quem pensa. E uma leve névoa de emoção se ergue absurdamente em mim; a bruma que vai saindo do exterior parece que se me infiltra lentamente.»


(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

6 comentários:

FOTOESCRITA disse...

A Baixa é linda ao nascer da manhã quando as lojas se abrem e a vida recomeça fresca.

hfm disse...

É junto com o anoitecer a altura que mais gosto de aí passear.

Teresa David disse...

Vou entrar nesta tua foto pois assim escuso de atravessar o tejo para nos encontrarmos!!!
Bjs
TD

T. disse...

Boa, Teresa!
:)))
Nota: Mas ainda bem que não podemos fazer isso, senão é que nos tornávamos sedentários...

merdinhas disse...

"E, de minuto a minuto, sensivelmente, as ruas desdesertam-se."

Choninha disse...

"Examino como quem cisma."

Hoje, também, estou assim.