segunda-feira, outubro 30, 2006



«Vinha por fim o Outono certo: o ar tornava-se frio de vento; soavam folhas num tom seco, ainda que não fossem folhas secas; toda a terra tomava a cor e a forma impalpável de um paul incerto. Descoloria-se o que fora sorriso último, num cansaço de pálpebras, numa indiferença de gestos. E assim tudo quanto sente, ou supomos que sente, apertava, íntima, ao peito a sua própria despedida. Um som de redemoinho num átrio flutuava através da nossa consciência de outra coisa qualquer. Aprazia convalescer para sentir verdadeiramente a vida.»


(Livro do Desassossego: Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa)

5 comentários:

hfm disse...

"Descoloria-se o que fora sorriso último, num cansaço de pálpebras, numa indiferença de gestos." e eu que gosto do Outono!

FOTOESCRITA disse...

Tudo tão bonito, Teresa: os tons da fotografia e os da escrita.

Teresa David disse...

Esta tua imagem outonal está tão bela que apetece penetrá-la e ficar debaixo dessas folhas a sentir esta temperatura ainda alta, mais primaveril do que de Outono.
Bjs e boa semana para ti
TD

merdinhas disse...

"Um som de redemoinho num átrio flutuava através da nossa consciência..."

Choninha disse...

O ar não se tornou frio, de vento, as folhas ficaram suspensas e na terra houve quem se constipasse: atchim!; o que me lixa são estes fins de dia sem luz, e o peito que me arranha e os cigarros que não me abandonam: "Remoinhos, redemoinhos, na futilidade fluida da vida." e como transcreves:«Aprazia convalescer para sentir verdadeiramente a vida.», assim estou eu, agora. Atchim! Santinho! ou seja, Santinha! Saúde!