quarta-feira, janeiro 17, 2007

Lisboa com suas casas


(S. Bento)


Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
de várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro das pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque ali deitado é outra coisa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fico só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.


(Fernando Pessoa)

8 comentários:

Isabel José António disse...

Pois é! LIsboa com as suas casas de várias cores! Quando era menina e moça, que sensação estética diferente e arrebatadora sair, ao final da manhã ou ao princípio da tarde, quando a força do Sol era tão forte que até as cores da cidade pareciam reforçadas e diversas! Ir, pela mão da minha Mãe, até uma rua da baixa... Observar tudo em torno... Sentir o aroma do café que saia das casas da especialidade, ver as pessoas nas pastelarias falando de coisas que, com três anos, me pareciam misteriosas e "crescidas"...

As casas podiam ser amarelas, rosa ou ter azulejos, mas era a própria cidade que era "pessoa" e assim se arranjava para vir ao nosso encontro...

Isabel

Acabo de actualizar uma das minhas "casas" o "Observatório", por sinal, com um post menos colorido, mais chuvoso, mas também com casas...

Porque não passa por lá?

http://diarioestetico.blogspot.com/

Isabel

T. disse...

Vou lá já fazer uma visita...

Teresa David disse...

Tão bonito o poema, mas é Pessoa, logo só poderia ser! Mas o que mais me emocionou é teres conseguido mostrar uma rua que perdi a conta de subir e descer, num ângulo tal que ganha uma dimensão que nunca alcancei de todas as vezes que por ela caminhei.
Bjs e as melhoras
TD

hfm disse...

Tão bem enquadrado e que pena que Lisboa tenha perdido esse encanto. Há, contudo, algumas boas recuperações.

merdinhas disse...

"Lá vai Lisboa"...

bettips disse...

Como palavras e ângulos vês, quem os veria assim? Quem faria a declinação certa do poema com as cores? Lindo, tanto!

aldina disse...

Lisboa com as suas casas é como a minha mãe com os seus canteiros...

Até sempre!

Tati disse...

Encantada! Ler Pessoa e sempre uma delicia.
Bela e excelente escolha!

;**