sábado, fevereiro 17, 2007



Árvores paradas na quinta, vistas através da janela,
Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo,
Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las,
Não poder eu fazer qualquer coisa género haver árvores que deixasse de doer,
Não poder eu coexistir para o fado de lá com estar-vos vendo do lado de cá.
E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão...

Que sonhos?... Eu não sei se sonhei... Que naus partiram, para onde?
Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteiro
Naus partem - naus não, barcos, mas as naus estão em mim
...


(A casa branca nau preta/Fernando Pessoa)

5 comentários:

M. disse...

Uma beleza! Um prazer para os olhos.

bettips disse...

"Haver árvores que deixassem de doer"...é muito íntimo e belo. Um sincronismo perfeito, dor desfocada. Bj

aldina disse...

Quem me dera, um bocadinho que fosse, de tempo e espaço para poder plantar e assitir ao início de um ser tão sábio como só as árvores sabem ser, até ao meu fim!

Até sempre!

ROADRUNNER disse...

hfwEngraçado como praticamente qualquer motivo de Lisboa pode estar interligado com o Fernando Pessoa...
Saudações

Isabel José António disse...

Querida Amiga,

Em Fernando Pessoa, tudo está no SER e no NÂO-SER. Neste das árvores tal é também perceptível.

Se formos ao âmago, ao mais profundo e íntimo das coisas que vimos (árvores, pessoas, rochas, núvens, etc. etc., a realidade é bem diferente daquilo que os nossos olhos veem. Encontramos as partículas subatómicas (neitrinos, neutrões, guões, piões, etc.) que não têm forma física, tal como estamos habituados a ver. São rastos de luzes, números e subtilidades que não têm aparência física mas sim mental.

E nesse "tudo" e nesse "nada", que estão contidos no TODO, existem todas as potencialidades de Ser e de Não-Ser.

Muito bonito.

Um grande abraço de muita amizade.

José António