domingo, dezembro 16, 2007



«Falando de Santos cumpre falar de São Vicente que está na Sé e que só viu Lisboa com olhos de morto. Dever é dever, e este mártir, apesar de muito espanhol, até ficou ligado ao brasão do nosso Minicípio por causa de certas fábulas do destino.
São Vicente, está provado, entrou no Tejo em cadáver navegante sob a guarda de dois corvos. Já ressequido e mirrado, acrescente-se. Já relíquia de sacrário, boca roída, dentes de fora. Chegou nessa figura e, embora santo, não teve uma palavra para a cidade que o recebeu. Sem um obrigado nem um Dominus tecum, recolheu à Catedral como quem recolhe a uma fortaleza e, desert, todo com ele, ficou-se a deixar correr os séculos por cima do seu cadáver.
Os corvos não. Os corvos, depois duma viagem tão vigilante, mal se apanharam em terra puseram-se aos pulinhos para desentorpecer e, metendo-se por becos e travessas, entraram logo em convivência.»

In Lisboa: Livro de Bordo / José Cardoso Pires

4 comentários:

hfm disse...

Hoje só para desejar um bom Natal e o melhor para 2008.

Teresa David disse...

Teresinha,
Gosto bastante deste livro do Cardoso Pires, que é um belo roteiro de uma certa forma de estar em Lisboa.
Um muito bom Natal para ti e para os teus
Um forte abraço da
TD

Marinha de Allegue disse...

Vaia onte estiven nunha casa onde os cadros eran de árbores e agora atopo o teu blog cheo de fotos de árbores tamén -"que significará iso na minha vida..." decía a profesora.

Unha aperta de Nadal.
:)

M. disse...

Fabuloso, este livro!